


Certo dia vindo pro trabalho ao cruzar a praça Gentil Falcão , localizada no Brooklyn, avistei uma barraca de acampamento de cor azul do outro lado e curioso fiquei me perguntando?
-O que será aquilo?Algum protesto?Greve de fome?Mais um sem teto?
Como eu estava com minha câmera, resolvi chegar mais perto pra fazer algumas fotos, sei lá talvez sugerir alguma pauta, ao me aproximar, vi que era um senhor e que estava muito calmo lendo um jornal e pensei.
-Vou me aproximar e perguntar se está tudo bem, quem sabe talvez conversar um pouco com ele.
- Como vai o senhor?
-Ele, compenetrado lendo o jornal levantou a cabeça vagarosamente, olhou no fundo dos meus olhos e respondeu da mesma forma que me olhou.
-Vou bem!
E dessa mesma forma que me olhou e respondeu, abaixou a cabeça e voltou a ler o jornal.
Fiquei observando, e como ele, calmamente perguntei?
-Qual é o seu nome?
-Marcelo, Antônio Marcelo!Respondeu com voz firme.
-O senhor mora sozinho nessa barraca?
Com um sorriso de lado me disse:
-Não, mora eu e mais dois!
-Como assim?Perguntei meio assustado.
-Mora eu, Jesus e Deus!
Fiquei um tempo parado, refletindo, logo em seguida sorri. Daí pra frente vi que ele tinha ficado mais a vontade e a conversa engrenou, fiquei uma meia hora de papo com aquele sujeito que era muito interessante e que tinha muita história pra contar. Foi o suficiente pra saber que é uma pessoa que apesar de viver naquela situação não deixou de ser educado, tem 42 anos, nascido no Brás, já morou em alguns lugares de São Paulo e inclusive em um dos apartamentos no conjunto de prédios em frente a praça e que está a 25 anos morando nas ruas da região, 21 só na Gentil Falcão, ao perguntar o motivo de estar tanto tempo nas ruas me respondeu com um ar triste e amargurado porém certo do que vinha "atrasando" literalmente sua vida :
-O álcool, estou na rua porque sou álcoolatra,unicamente por isso!
Ficamos em silêncio, até tentei mas percebi que ele não queria tocar mais no assunto.
Por fim, nos despedimos, prometi que passaria ali depois pra levar algumas coisas, observei que ele ficou muito feliz por eu ter lhe dado um pouco de atenção, e assim foi o começo de mais um dia.
"Todo dia vemos pessoas nas ruas, levantamos os vidros de nossos carros, fazemos de nossas casas fortalezas bem protegidas, tudo bem!Sei que a violência está em todo lugar, porém esquecemos que o problema está na nossa cara, e que fingimos não ver, se pararmos pra conversar com alguém que mora nas ruas ou que trabalha nela como um simples vendedor de balas, um engraxate, etc.Você verá que cada um tem uma história de vida pra contar, seja por uso de drogas, o próprio álcool, ou que vem de outro estado pra tentar uma vida melhor e não consegue, ou por falta de opção mesmo, o que muitos deles querem é algo em comum, apenas um pouco de atenção."

belo relato,parabéns!
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